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Globo rompe paradigmas ao citar Augusto Nunes e Jovem Pan em documentário

Folha de S. Paulo - 21 de janeiro de 2023



É historicamente excepcional que a Globo mencione outros veículos de comunicação em produções próprias, a não ser quando reconhece que algum jornal, site, emissora de rádio ou TV tenha revelado antes determinada informação relevante para o interesse público no cenário nacional.


Assim, essa excepcionalidade raramente se configura como um olhar crítico ou de quem aponta o dedo para o outro, mesmo que de modo velado, e mais ainda de forma nominal, como acontece agora com uma citação dos ataques do ex-âncora da Jovem Pan, Augusto Nunes, ao STF, quando ele ainda dominava o microfone da emissora, e o papel do YouTube nesse cenário.


A abordagem está em "extremistas.com", série documental em oito capítulos --seis deles já disponíveis--, com realização do Grupo Globo para o GloboPlay. A produção aponta diagnósticos, riscos e efeitos do bolsonarismo radical.

A menção a Nunes não é feita diretamente pelos responsáveis pela série documental, mas por meio de uma das entrevistadas ouvidas em "extremistas.com". Diretora do NetLab, que tem estudos relacionando os mecanismos do Google à difusão de mentiras pela internet, Marie Santini, da UFRJ, questiona o favorecimento do YouTube à Jovem Pan, cujo conteúdo muitas vezes continha acusações que não se sustentavam nos fatos.


"Tem o culpado por crimes contra a Constituição, que é o Alexandre de Moraes, e oito comparsas, não são juízes", diz Augusto Nunes pela tela da TV Jovem Pan em um trecho recortado pelo documentário, referente a abril do ano passado.

Nunes encabeçou uma lista de demissões e desligamentos promovidos pela emissora assim que se consumou a vitória de Lula nas urnas. Esta semana, dias depois de ter virado alvo de inquérito do Ministério Público Federal de São Paulo, que investiga a prática de fake news pela emissora, a Jovem Pan dispensou Rodrigo Constantino e Zoe Martinez, que em várias ocasiões incentivaram a ação de bolsonaristas acampados diante de quartéis como resistência ao resultado das eleições de outubro.


Alguns desses militantes são perfilados pelo documentário do GloboPlay, que toma o cuidado de não julgá-los, expondo cada um apenas a partir de suas ações, frases e contradições.


"Os ataques ao Supremo foram reforçados por comentaristas que importaram dos Estados Unidos o estilo ultra conservador da mídia hiperpartidarizada", diz o texto do doc, na voz de Malu Mader, narradora que guia o roteiro da produção. Em outro trecho destacado de sua fala, Augusto Nunes afirma: "Fizeram papéis de vilões, que são os ministros do Supremo".


"A campanha contra o STF é uma campanha permanente que já tem uns quatro anos", avisa a pesquisadora Marie Santini. "Então, eles [bolsonaristas] vêm fazendo #STFVergonhaNacional, que é uma hashtag que a gente acompanha no Twitter, é uma hashtag estável, todos os dias é o mesmo volume, isso mostra claramente a automação, eles fazem essa campanha permanente porque isso vai tirando um pouco a credibilidade, vai criando um certo ranço da população contra o STF", ela explica.


Diante desses elementos, a pesquisadora lembra que o YouTube tinha um compromisso de privilegiar fontes confiáveis de informações. "Matematicamente, de 18 vezes, a Jovem Pan aparecer dez vezes como a primeira recomendação [do YouTube], a probabilidade de isso acontecer é 0,00002%. É muito baixa, e apareceu 55% das vezes. Então, a gente fez um experimento que mostra que, matematicamente, o algoritmo está enviesado. E aí, no meio da eleição, ela [Jovem Pan] receber esse privilégio da principal plataforma de conteúdo é muito problemático, que é um momento que tem regras para todos os meios de comunicação", ela conclui.


O estudo, que foi antecipado pela Folha em reportagem de Patrícia Campos Mello, em 13 de setembro passado, motivou a campanha de Lula a questionar o TSE sobre o assunto no dia seguinte. Ao resgatar seus efeitos, o documentário promove aquele cenário a um outro o contexto, agora com a Jovem Pan na mira do MPF, após uma tardia mudança de rumos do próprio YouTube.


Malu Mader, a narradora do documentário, reassume a condução do script para informar que "o estudo coordenado por Marie Santini mudou as recomendações propostas pelo Youtube assim que foi publicado, em setembro, mas os canais da emissora, como o Pingos nos Is [que era apresentado por Augusto Nunes] só seriam desmonetizados pela plataforma dois meses depois".






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